DA CULTURA DO CORPO

reflexões sobre o  corpo no cenário da  biotecnologia

Terezinha Petrucia da Nóbrega

 

As transformações corporais possibilitadas pela biotecnologia, pela realidade virtual, configurando um hipercorpo, um corpo híbrido, desterritorializado, reatualizam as discussões sobre o corpo  que tenho e o corpo que sou, sobre o que nos define como seres humanos,  sobre a nossa forma corporal e sobre os limites da nossa corporeidade.

Stelarc, artista contemporâneo que realiza performances utilizando Robótica, sistemas de realidade virtual, interfaces com próteses e computadores tem sido um dos interlocutores desse debate, ao anunciar que o nosso corpo biológico é obsoleto. Dentre suas performances, destacam-se as interfaces  com sua Terceira Mão, um exoesqueleto e   uma escultura do estômago. As performances são coreografias compostas pela interação do controle fisiológico com a modulação eletrônica e realizam-se  por meio de processos desse corpo amplificado que incluem ondas do cérebro (ECG), músculos (EMG), controle da pulsação e do fluxo  sangüíneo (Doppler) e de outros condutores e sensores que monitoram o movimento dos membros e indicam a postura do corpo.

 Stelarc provoca a reflexão filosófica ao afirmar que o corpo é obsoleto e que as capacidades de ser um corpo são restringidas por  ter um corpo: Ë hora de se perguntar se um corpo bípede, que respira, com visão binocular e um cérebro de 1.400cm³ é uma forma biológica adequada. O corpo é uma estrutura nem muito eficiente, nem muito durável. Com freqüência ele funciona mal e se cansa rapidamente; sua performance é determinada por sua idade. É suscetível a doenças e está fadado a uma morte certa e iminente. Seus parâmetros de sobrevivência são muito limitados - o corpo pode sobreviver somente semanas sem comida, dias sem água e minutos sem oxigênio ( Stelarc, 1997, p. 54).

Para Stelarc (1997), nossas ações e idéias estão determinadas pela nossa fisiologia. Estamos no limite da filosofia, por isso precisamos reprojetar o corpo e redefinir o que é o humano. Essas idéias não se restringem ao universo dos happenings, mas estão presentes em outros discursos contemporâneos, por exemplo Marvin Minsky, Donna Haraway, entre outros.

Nossa sociedade inventou e continua a reinventar o corpo como objeto de inúmeras intervenções sociais, técnicas e tecnológicas, o que nos leva a interrogar: que possibilidades hoje nos são abertas  e que experiências nos são possíveis? O corpo que tenho corresponde ao corpo que sou? O que é ser um corpo? O que é ter um corpo? O que é hoje a nossa corporeidade?

Particularmente em relação ao corpo, o processo de virtualização possibilitado pelas biotecnologias concretiza-se na alteração das funções somáticas como: a percepção, os movimentos de deslocamento do corpo, as alterações na visibilidade do corpo,  seja por reconstituições da  pele, dos tecidos, seja pela criação de modelos digitais,  entre  outras possibilidades. O fenômeno de reconstrução da identidade do humano, a partir da virtualização, cria o hipercorpo, propício às mais diversas viagens e trocas entre os indivíduos. Cada corpo individual torna-se parte integrante de um imenso hipercorpo híbrido e mundializado ... Meu corpo pessoal é a atualização temporária de um enorme hipercorpo híbrido, social e biotecnológico ( Lévy, 1998, p.31; 33).

 O corpo é visto por alguns entusiastas das novas tecnologias como anacrônico, inadequado, obsoleto. O corpo eletrônico por sua vez atinge a perfeição, pois é imune à doença, à deficiência física e até mesmo à morte. O corpo biônico deve substituir o velho corpo biológico. Para o filósofo Le Breton, essa visão do mundo que isola o corpo em sua materialidade biológica, hipostasia o espírito. O discurso sobre o fim do corpo é um discurso religioso e o dualismo não se inscreve mais na metafísica mas sim no concreto da existência, dada  a possibilidade de alterações na nossa corporeidade. Se o homem só existe por meio de formas corporais que o colocam no mundo, qualquer modificação de sua forma implica uma outra definição de sua humanidade ( Le Breton, 2003, p. 136). Certamente essa definição ou redefinição do que é humano apresenta questionamentos de várias ordens: éticos, epistemológicos, ontológicos, estéticos

Se por um lado,  essa revolução somatoplástica pode contribuir para a readaptação ou reconstrução de corpos mutilados, restaurando aspectos funcionais, por outro lado, o ressurgimento do corpo na atualidade, fundado nas próteses e no modelo cibernético, traz consigo o reaparecimento do dualismo, em novas bases, apontando uma defasagem do corpo em relação às possibilidades da bioengenharia, transformações do corpo e viagens plasmáticas no universo on line, frente ao nosso espaço tridimensional, entre outros aspectos. Um novo mentalismo ressurge com toda força na cultura contemporânea. Desse modo, busca-se substituir a emergência das funções corporais pela virtualidade, tornando o corpo um objeto cibernético.

Na contemporaneidade, alguns afirmam:  eu sou na medida das minhas conexões, como o que define hoje a nossa subjetividade, nosso corpo. Mas, desde sempre o corpo do homem foi investido das inovações tecnológicas, pois história humana e técnica pertencem a um mesmo movimento. Certamente, fizemos um longo percurso desde a Grécia e seus mitos encantadores até nossos sofisticados laboratórios de genética, informática e biomêcanica. Somos resistentes a incorporá-las a nossa imagem, recorrendo por vezes a naturalismos ingênuos. Ingênuos por não reconhecerem que o humano não emerge de uma evolução linear, mas de um mundo complexo: biológico, técnico, político, semiótico e incarna-o, corporifica-o. Do mesmo modo que criticamos os dualismos mais tradicionais, a saber: sujeito e objeto, natureza e cultura, interior e exterior, corpo e alma;  precisamos repensar a oposição entre homem e máquina,  humano e o não humano  (Tucherman, 1999).

Pelo menos desde a Renascença, o corpo do homem vem sendo progressivamente desvelado.  As modificações trazidas pela visibilidade pública do conhecimento do interior do corpo, permitidas pela Anatomia,  articula relações com a representação mecânica do corpo, sobretudo pelo olhar objetivo do funcionamento do corpo humano e de suas partes. O discurso do corpo-máquina, formulado por Descartes no século XVII, instituiu padrões de movimento marcados pela distinção dos processos corporais e mentais, eficiência e utilidade, que ainda hoje influenciam as práticas corporais. Ao duvidar sobre a existência da materialidade corpórea, Descartes instaura um campo de investigação sobre o corpo em diversas áreas, por exemplo  na medicina.

Em 1748, La Mettrie, radicalizava Descartes, afirmando que os homens eram meras máquinas, conjunto de engrenagens puramente materiais, sem nenhuma substância espiritual como pretendia Descartes ( Rouanet, 2003, p. 38).  Referindo-se à obra de La Mettrie, Rouanet diz que contra a ditadura do gene, podemos agir politicamente para que não haja nenhum homem-máquina, ou que ele seja tão amável quanto o homem de lata do Mágico de Oz, que acaba ganhando um coração ao fim de sua jornada. O homem como autor de seu destino, suficientemente corajoso para rejeitar qualquer apelo a um pai transcendental, suficientemente humano para não transformar a pedagogia em arte de amestrar e suficientemente democrático para não substituir a política pela biologia. Em parte, La Mettrie concordaria com isso, apesar de sua ênfase biológica; detestava a idéia de uma reposição genética que mudasse as condições sob as quais se processam à alimentação  e à sexualidade humanas; ele [ dada a sua condição de bon vivant e consumado  epicurista] preferiria  continuar tomando seu vinho e acariciando o seio de Philis (idem, p. 63).

O determinismo biológico do DNA encontra resistências advindas do próprio campo científico. Para cientistas como François Jacob, Henri Atlan, Maturana e Varela,  a existência humana não se reduz aos fundamentos químicos. Nessa perspectiva, a visão da Biologia Molecular torna-se insuficiente, pois, ao considerar que os genes constituem a informação que especifica o ser vivo, reduz o todo à propriedade dos componentes. É certo que modificações nos genes trazem conseqüências dramáticas para a estrutura de uma célula. O erro está em confundir participação essencial com responsabilidade única ( Maturana e Varela, 1995, p.107).   

No campo da Genética,  seres híbridos e clonagem são possibilidades de reprogramação da vida.  O filme Meninos do Brasil mostra experiências de clonagem que teriam sido feitas por Yusef Menguelli, criando 94 clones de Hitler.  O que dá um caráter apavorante a um filme como Meninos do Brasil não é somente o fato de que os clones foram produzidos a partir das células de Adolf Hitler, e sim o fato em si da clonagem. Continuaremos angustiados mesmo que o protótipo do qual foram gerados fosse a madre Teresa ( Rouanet, 2003, p. 59).

O olhar da Ciência sobre o corpo não se desenvolveu sem resistências, seja no campo filosófico ou científico. Para Merleau-Ponty ( 1992) a ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Esse pensamento objetivo ignora o corpo sujeito e trata-o como objeto de manipulações. O projeto de dar conta da existência a partir de um modelo mecânico justifica-se pelo fato de que temos um corpo submetido às leis da mecânica como qualquer outro: se for empurrado, vai para frente, se for puxado, recua,  se for levantado e largado cai no chão. Mas não é só isso. Ë o nosso corpo, o corpo-próprio, cuja espacialidade e temporalidade possuem sentido e significado nos diz Merleau-Ponty.

A respeito do desenvolvimento da ciência nos diz François Jacob, médico, biólogo, prêmio Nobel em 1956, na área de pesquisa genética em bactérias: somos uma temível mistura de ácidos nucléicos e lembranças,  de desejos e de proteínas. O século que termina ocupou-se muito de ácidos nucléicos e de proteínas. O seguinte vai concentrar-se sobre suas lembranças e os desejos. Saberá ele resolver essas questões? ( Jacob, 1998,  p. 156).

 

REFERÊNCIAS

 

JACOB, François. O rato, o homem e a mosca. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 

LE BRETON, André. Adeus ao corpo. IN NOVAES, A . ( Org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

LÉVY, Pierre. O que é o virtual? Rio de Janeiro: Editora 34, 1998.

MATURANA, H. & VARELA, F. A árvore do conhecimento. Campinas: Psy, 1995.

MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 1992.

ROUANET, Sérgio Paulo. O homem-máquina hoje. IN NOVAES, A . ( Org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

STELARC. Das estratégias psicológicas às ciberestratégias: a protética, a robótica e a existência remota. IN DOMINGUES, D. ( Org. ). A arte no século XXI: a humanização das tecnologias. São Paulo: Unesp, 1997.

TUCHERMAN, Ieda. Breve história do corpo e de seus monstros. Lisboa: Veja, 1999.

 

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